Obrigada amor por me salvares do (des)amor

Conheci o yoga numa altura em que para mim não havia sentido na vida. Hoje escrevo este texto porque, além de “instrutora”, sou acima de tudo praticante devota deste modo de vida chamado yoga. Mas o yoga não mudou a minha vida no dia em que entrei na primeira aula, nada disso. Quando comecei a praticar, os 10 minutos do relaxamento final eram para mim uma tortura, quando devia apenas relaxar e esquecer tudo, era quando me concentrava mais em tudo o que estava mal e me tornava cada vez mais obcecada com certas situações. Eu gostava das aulas, entrava e sentia uma energia positiva, que sinto em muito poucos lugares ou situações, sentia a paz à minha volta e gostava da novidade, estava em sintonia com a pouca força de vontade que tinha em mudar a minha vida, que era inteiramente despendida nas duas aulas semanais que fazia. Não foi pacífico, o yoga ajudou a trazer o conceito de “calma” para a minha vida, mas muitas vezes me questionei se fazia sentido continuar, porque me “stressava” ainda mais no relaxamento final e acabava por sair de lá ainda mais focada no que queria esquecer… Mal sabia eu que é isso mesmo que o yoga faz, faz-nos enfrentar a nossa vida se estivermos dispostos a enfrentarmo-lo a ele, apenas isso! Felizmente, ou por força do destino, nunca desisti da prática. O interesse em mudar de vida (sabia que alguma coisa estava mal na maneira como vivia, nada me satisfazia plenamente e saltava de obsessão em obsessão, fossem elas quais fossem) fez com que começasse a interessar-me pela teoria do yoga e por terapias alternativas, o que me levou, inexplicavelmente ou mais uma vez por obra do destino, à medicina ayurvedica, uma área fascinante de conhecimento sobre a nossa saúde. Esse interesse levou a atirar-me de cabeça para uma formação intensiva em terapias corporais ayurvedicas, que ajudou a virar a minha vida. De repente já estava na direcção do caminho certo, agora era só começar a caminhar! Ao mesmo tempo, fiz aulas com um novo professor de yoga, que me ensinou muito e a quem devo muito. Vi o mesmo yoga de outra perspectiva e com outros sentimentos. O flirt virou paixão, e do curso de ayurveda saí com a certeza de que o yoga era uma coisa muito séria na minha vida, e aquele era só o inicio… a vida fala connosco assim! As pequenas lições do yoga começaram a despertar. Para além de como me manter equilibrada na postura da árvore ou em utthita hasta padangusthasana, ou de como finalmente fazer sirsasana, aprendi muitas coisas.

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Aprendi, acima de tudo, muito sobre o amor, que já conhecia (e bem 🙂 ) mas que confundi muitas vezes. Aprendi que não devemos procurar em alguém o que não encontramos em nós. Aprendi que para amarmos temos de estar bem connosco primeiro, senão o amor nunca será verdadeiro. Aprendi que confundimos amor com apego, e que essas são coisas tão diferentes… Que não precisar de alguém e amá-lo/a mesmo assim é o sentimento mais nobre que existe. Aprendi que existe uma coisa chamada Ego. Que esse ego é o que nós achamos que somos, a nossa personalidade, o nosso eu que identificamos com o nosso corpo, as nossas manias, os nossos defeitos e as nossa qualidades. E que esse ego é irreal, não vale nada. Aprendi que o yoga destrói essa ideia de ego, esse ego-ismo. Aprendi que (quase) tudo é passageiro, que devemos (tentar) valorizar o que é permanente. Fiz as pazes com a religião, com quem me tinha chateado há muito tempo, e aprendi a aceitar que tudo o que existe não está encerrado em mim. Aprendi que tudo o que sentimos e pensamos, tudo o que achamos que é a realidade, é apenas a construção da nossa mente. Aprendi que podemos sentir e pensar o que quisermos, que somos livres e quão bom isso é! Aprendi a aceitar o que acontece, a aceitar os outros como são. Aprendi que as coisas dos outros não dependem de mim, que o meu diâmetro de alcance é pequeno e acaba onde posso fazer meras sugestões aos outros. Aprendi que são precisas duas pessoas para as coisas correrem mal. Aprendi que era mesmo verdade, a minha boa energia irradiava mesmo para os outros nas suas relações comigo. Aprendi o que é a felicidade, essa coisa que está sempre lá, como pano de fundo, que existe só porque sim, esse sentimento de paz e plenitude, que existe em todos nós, naturalmente, sem depender de nada e nos faz ver a vida com outros olhos. Aprendi que o dinheiro (e afins) não traz mesmo felicidade, nem um bocadinho, nem ajuda, nada. Aprendi uma palavra nova: “desapego”. Engraçado, desap-ego, lá está o ego outra vez, que dá origem a tantas palavras más. O desapego, uma palavra tão difícil de definir e tão mal compreendida que ficará para outro texto. Aprendi a adormecer e a dormir bem, conhecimentos valiosos para quem sofreu de insónias durante anos. O yoga apareceu na minha vida para me mostrar que a paz existe, que é possível haver silêncio na mente, e que sabe tão bem saborear esses momentos. E, especialmente para mim, que os 10 minutos de relaxamento final são impagáveis!

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E, recentemente, num momento em que a minha vida se preparava para se dirigir novamente a um longo caminho, que, se percorrido, me arrastaria mais uma vez para uma existência cheia de amarguras, insatisfações e arrependimentos, lá estava o yoga para me suportar e iluminar novamente, lá apareceu o ashtanga, no dia em que, se não o tivesse feito, teria perdido parte do que acho que sou hoje. O yoga é algo que está sempre connosco, ou comigo, neste caso. Aprendi a nunca dar por garantida a nossa sanidade mental e sou uma sortuda por ter o yoga sempre comigo. Todos os dias aprendo coisas novas com o yoga, e todas elas me tornam uma pessoa melhor e mais feliz, para mim e para os outros: afinal o yoga é, aos meus olhos, um estilo de vida. Cá está o yoga todos os dias, para me motivar e me fazer ver o que é importante, e que bom que é o que sobra quando fazemos a triagem do que interessa e do que não interessa na vida, todos os dias, no meu caso com a ajuda do yoga, sempre.

Se hoje estou aqui e se hoje escrevo este texto, é porque o yoga mudou a minha vida. E deu-me paz, como pedi.

Obrigada Hatha. Obrigada Ashtanga. Obrigada Yoga.

Obrigada aos meus professores, porque o yoga é uma sabedoria discipular, que se transmite de mestre para discípulo, de professor para aluno.

Rita SL

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9 thoughts on “Obrigada amor por me salvares do (des)amor

  1. Rita as lágrimas vieram me aos olhos! Essa pessoa que descreve sou também eu, até à parte em que sou ainda apenas aluna! Obrigada por essa lucidez, desprendimento, esse desapego! ❤

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