As minhas dúvidas, de amor e de vida, que todos também têm:

Pus-me a pensar no ashtanga, que temporariamente deixei, na “minha” professora e no seu texto que acabei de ler, que me pôs a pensar sobre tudo o que escreverei aqui:

Ando há meses a pensar porque será que ando sempre a ver capicuas nas horas do telefone (como sou humana e preciso que as coisas façam quase sempre sentido, assumo que é desde que conheci o meu querido namorado, e que sempre que me aparece uma capicua é porque está a pensar em mim – a maneira como a nossa mente funciona…!), e hoje, que é dia 11/11, calhou (será?) ver as horas no telemóvel quando eram 11:11! Decidi registar o momento para convencer o meu namorado de que há mesmo aqui qualquer coisa de importante:

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De manhã, enquanto tomava o pequeno-almoço, ofereci-me a mim mesma uns momentos plenos de calma, como se não existisse limite de tempo para estar sentada àquela mesa (e não tivesse que depois sair a correr), fiquei apenas a contemplar, bebendo o meu chá de cidreira, feliz por estar onde estava, apesar da noite de insónias, devidas a preocupações e inseguranças, sobre dar um determinado passo em frente ou não, e por acaso li este texto que começava da seguinte forma:

“Esta semana é um momento muito poderoso para novos inícios e mudanças na sua vida. Com a lua nova em Escorpião, em 11/11, esteja presente no que você está criando e estabeleça algumas intenções pessoais ousadas do que você quer experienciar, ser e fazer em seguida. Luas novas são sempre um excelente catalisador para o início de um novo capítulo em sua vida, ou obter um novo começo com um projeto ou pessoa atual. Esta lua nova – em parte porque ela cai no portal 11/11 – incorpora um impulso energético ampliado para a mudança positiva. Isto não se refere apenas a um dia – 11/11 – as energias estarão reverberando como ondas durante dias depois disto.”

Curiosamente hoje é também o Diwali, o “festival das luzes” hindu, que simboliza a vitória da luz sobre a escuridão, do bem sobre o mal, da sabedoria sobre a ignorância, da esperança sobre o desespero.

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Talvez seja essa a âncora do dia que tive.

Conversas complicadas sobre arrendar ou não arrendar a minha primeira casa, banhadas por kms de medos e dúvidas, que nos enchem sempre a cabeça perante situações novas e incertas, e no meio da vontade (e do cuidado) de fazer tudo certo e do medo de perder esta fase tão boa que tenho vivido. Neste momento exacto penso na vida e em como é engraçado irmos vivendo, passando por cada coisa e aprendendo, e sobretudo inventando! Penso se estarei certa em dividir a casa com o meu amorzão (petit nom público), penso que da parte do dito cujo só existem medos de relacionamentos estáveis e normais, sobretudo de compromissos emocionais, tal como devem existir em tantas outras pessoa. Penso se estou certa do que quero, se tenho medo e isso significa que não estou segura e por isso não devo arriscar, porque o normal seria estar certa? Ou se devo ir em frente, como sinto que devo, sem cobardias? Penso se será que este foi um daqueles acasos do destino, a casa ideal, na altura ideal. Ontem não preguei olho, tive insónias como já não tinha há muito tempo, a dormir ao lado do meu amorzão, que tem este efeito de me acalmar à noite, excepto ontem. Será que estou a fazer a coisa certa, que isto é o melhor para mim, para nós, até para o mundo?! Será que isto ou aquilo foi um bom ou um mau sinal…?

Sinto-me afogada no meio de dúvidas e tenho a vontade cobarde de desistir de tudo, perder a oportunidade da casa, desejando secretamente que ela fique ocupada sem que tenha de me responsabilizar pela decisão.

Mas não, não vou desistir, vou em frente, vou tentar, acredito que é o melhor e vou seguir o meu instinto! E falo de cor, de coração.

Ao mesmo tempo penso nestes cuidados que tenho com os outros, neste trabalho gratificante, produtivo, mas cansativo, de aprendermos a controlar as nossa reacções, tentar agir por sabedoria e não por impulso, aprender a compreender os outros com calma, perceber as suas reacções, os seus medos, as suas dúvidas, as suas reservas e protecções. Mas às vezes cansa. Sim, para os meus alunos que acham que a minha vida é isenta de problemas desta categoria, somos TODOS humanos, parem com isso de achar que os outros são muito melhores do que vocês, melhores nas posturas, melhores no relaxamento, melhores na concentração, melhores na calma e melhores na alegria de viver, simplesmente não é verdade! Eu hoje também preciso desesperadamente de dormir, hoje também tenho dores de cabeça e hoje também chorei. O trabalho por aprendermos a viver melhor nunca pára e isso não tem mal.

No meio da esquizofrenia emocional de felicidade e ao mesmo tempo de cansaço e desmotivação, no mesmo dia ainda vi o meu Ego ser total e completamente apagado, e pergunto-me porquê? O que raio devo retirar do que aconteceu e de que forma é que isso pode contribuir para a minha vida (talvez seja coisa de yogi tentar pensar assim)?

Odisseia no ginásio: Dei uma aula à hora do almoço e pela primeira vez tive uma aluna a queixar-se das minhas aulas. Porque (e cito): as minhas aulas são industriais, comerciais, já desligadas da filosofia do yoga, porque se calhar sou inexperiente e devia ir aprender com a professora que [a aluna] teve, que dá aulas na Parede, porque não vario nada as posturas, porque ficamos demasiado tempo nas posturas e ela fica irritada porque passa o dia no escritório na mesma posição e quer mexer-se o máximo possível, porque a professora dela colocava Deva Premal nas aulas e eu não (sim, para as aulas sou fã de um disco do Chinmaya Dunster, conselho de amiga!), porque as aulas dela eram de 1h e meia e esta aula à hora do almoço é só meia hora, porque a meditação que fazia era com mantras, porque não percebe o porquê de fazer 5 saudações ao sol: 1, 2, ou mesmo 3 até percebia, agora 5?!, que a saudação ao sol que faço é a mais básica de todas (sim, sou fiel eterna ao Surya Namaskar A e B do ashtanga), e por que não fazer de vez em quando umas saudações à lua ou à terra?, nas outras aulas fazia aquecimento e eu não faço, e por fim porque vem às minhas aulas praticamente por obrigação, porque sinceramente nem sabe o que vai ali fazer.

Enfim, nem sabia o que sentir, mas pensar sabia (como é que alguém pode dizer que é falsa a coisa mais importante da minha vida?). Por um lado foi uma boa oportunidade para discorrer sobre a minha maneira de ver o yoga, falar sobre filosofia oriental e sobre o que aprendi com o yoga quanto à arte de viver, é a melhor coisa que me podem pôr a fazer, e dificilmente me calo.

Tentei explicar que há um mundo de coisas a aprender no yoga e que cada professor retira o que faz sentido para si, que apenas ensino aquilo que pratico e sinto, que a estabilidade nas posturas é das coisas mais importantes no yoga, que para o meu gosto nem permanecemos assim tanto tempo nas posturas, que a prática de hatha yoga avançado, para mim, passa mais pela permanência e não pelos malabarismos, que a ideia não é estar sempre a fazer posturas diferentes (apesar de eu as fazer), muito menos quando os alunos ainda não dominam as que considero mais importantes, que a ideia do yoga é contrariar essa coisa de agirmos sempre por impulso, segundo os estímulos que são feitos aos nossos sentidos, que é típico da mente humana querer sempre coisas novas, e no yoga queremos contrariar exactamente isso, que não há posturas fáceis nem difíceis no yoga, o que é uma coisa para uma pessoa, pode ser a oposta para outra, que a saudação ao sol só se torna eficaz se for feita repetidamente, e com a prática deverá tornar-se uma sequência meditativa, com foco na respiração, que aquela aula à hora do almoço é de meia hora porque não dá para ser mais e pouco é sempre melhor do que nada, que cada pessoa é diferente e temos de aprender a aceitar isso, que se calhar deve experimentar um tipo de yoga mais dinâmico, como o ashtanga, mas sim, de facto, por outro lado, a “sequência é sempre a mesma” (só percebe a falsidade disto quem pratica ashtanga), por isso esse também não serve, que deve procurar o sítio e o professor de yoga de que gosta e para não desistir, para praticar ao fim-de-semana (“não, ao fim de semana não tenho tempo, é para arrumar a casa e ir às compras e descansar), porque sim, o yoga também deve ser para descansar, corpo e mente, se isso não acontece, há algo de errado, e nunca será com o yoga em si.

Penso agora que provavelmente esta minha aluna descarregou em mim insatisfações e frustrações de uma vida cheia de coisas más, sem tempo para as boas. Penso inevitavelmente sobre o poder que este tipo de coisas tem sobre nós, sobre mim, pretensa super-mulher desapegada que aconselha sempre os amigos e família a não ligarem a nada disto, a perceberem que esse tipo de coisas más vêm dos outros, são apenas deles, nunca nossas, só temos de recusar esse “presente” que nos querem oferecer (como tão bem aprendi no curso de meditação Vipassana). E afinal, aqui estou eu, ao fim do dia, a escrever sobre isto, que me tirou a concentração o dia inteiro e me fez sentir tão insegura na aula que dei à noite, mas agora já mais calma. Muito mais calma. A escrita tem este efeito algo egoísta, de limpeza e organização.

É muito fácil sentirmo-nos insatisfeitos com a vida que levamos, todos temos problemas, obrigações e responsabilidades, desejos e sonhos insatisfeitos, e menos tempo para nós do que gostaríamos. Mas também é fácil sentirmo-nos felizes e gratos, a mudança de um sítio para o outro pode ser tão fácil, tão rápida e muitas vezes somos nós que a evitamos. Do yoga nunca esquecerei as lições sobre o prazer de cumprir o dever. Sobre assumirmos as responsabilidades com gosto e força, porque, como já escrevi, a sensação de dever cumprido é impagável.

Para todos os que estão, ou poderiam estar, perante decisões, mudanças, desmotivações ou desilusões: sentem-se à lareira como eu, e apreciem o que de bom têm, não deixem que o mal vença sobre o bem e sejam felizes, e para isso é só não sermos infelizes 🙂 (e nunca digam a uma professora de yoga que as aulas dela são comerciais e que só lá vão por obrigação, habilitam-se a colocá-la perante um grave crise existencial!, até porque julgar os outros é sempre precipitado e sempre falso).

Despeço-me com pressa, à frente da lareira, a ouvir esta música de que tanto gosto, grata e feliz pelo que tenho e por quem tenho, e ansiosa pela visita conjunta que irá ser feita amanhã à minha potencial casa nova 🙂

Boas práticas de Yoga e de todas as outras coisas que vos ajudem a ser verdadeiramente felizes.

Rita

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2 thoughts on “As minhas dúvidas, de amor e de vida, que todos também têm:

  1. As suas aulas de yoga são adaptadas aos alunos que frequentam um ginásio e está condicionada ao horário que existe. Um ginásio nunca será o local ideal para esta prática mas, como disse, é (muito) melhor do que nada. É uma pena que essa pessoa tenha “descarregado” essa energia de tal forma, mas nada acontece por acaso. Eu frequento as suas aulas, e já frequentei hatha noutras escolas (boas escolas) e fiquei contente pela abordagem que tem, tendo em conta que estamos num ginásio. Obrigada por disponibilizar o seu tempo a ensinar-nos.

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